
Vorath O Proscrito
A Origem do Grimório das Criaturas
by adolfo moraes
Rejeitado desde a infância na implacável floresta de Białowieża, Vorath carrega na pele a marca amarga de ser um proscrito. Criado entre guerreiros ferozes e instruído nos segredos arcanos pela velha Baba Zlada, ele jamais conheceu sua verdadeira linhagem. Tudo desmorona quando uma horda sanguinária de mortos-vivos Vjesci reduz sua aldeia a cinzas, arrastando seus companheiros mais preciosos para a escuridão. À beira da morte, seu mentor lhe confia a espada rúnica Skjöldr-Týr e um terrível aviso: o massacre não foi um acaso, mas um chamado sangrento. Armado com a lâmina ancestral e um grimório proibido de horrores esquecidos, Vorath cavalga rumo ao Norte gélido. Entre florestas povoadas por ghouls famintos, feiticeiros ambíguos e conspirações de cavaleiros decaídos, cada passo o aproxima da verdade sobre o próprio sangue — e de um culto sombrio prestes a despertar o Senhor Sob a Terra. Para salvar quem ama, o proscrito terá de encarar seu maior pesadelo: descobrir que a salvação do mundo pode exigir a extinção de sua própria herança.
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O Coração do Elfo Negro
Nidaros1, dezembro de 1387.
Caminho pela névoa densa da floresta de Nidaros, com Skjöldr-Týr2 em punho. O brilho prateado da lâmina afasta as sombras e revela as runas de Algiz e Tiwaz gravadas no aço. O frio corta meus pulmões e enrijece meus membros. Minha respiração, lenta e silenciosa, é o único som que rompe a quietude. Meus passos são quase imperceptíveis. Acima de mim, apenas a lua cheia de inverno, o fullt tungl3, abre um fio de luz na escuridão.
Sinto que sou observado.
Avanço entre pinheiros, abetos e bétulas em direção às ruínas de um antigo templo dedicado aos Landvættir4, destruído pelos “homens da cruz”. Quanto mais me aproximo, mais claro fica o que restou do santuário: pedras quebradas, vigas apodrecidas e, de pé, apenas o altar central, desafiando o tempo.
O silêncio torna-se pesado.
Não estou sozinho.
Entro nas ruínas com cautela. O odor de morte e doença é sufocante.
Vim por uma única criatura.
O svartálfr5. O elfo negro responsável pela maldição que levou o rei Olavo IV à morte poucos meses antes.
No centro das ruínas repousa uma mesa de madeira rústica, coberta de inscrições numa língua antiga: “Aos seres da floresta, nossa reverência.” Sobre ela, um cristal negro pulsa com uma luz azul, como o bater de um coração.
Acredito ter encontrado a fonte da magia do svartálfr. Aproximo-me devagar, ergo Skjöldr-Týr e desço a lâmina com toda a força.
No instante em que a lâmina deveria atingir o cristal, ele desaparece diante de meus olhos.
Uma ilusão. Uma armadilha.
Meu erro abre a oportunidade que a criatura aguardava. Das sombras, o svartálfr salta sobre mim. Perco o equilíbrio, e minhas costas atingem o chão gelado com violência. A espada escapa de minhas mãos e some entre os escombros.
O elfo é franzino. A pele acinzentada lembra a de um cadáver envelhecido, os olhos vermelhos brilham como brasas vivas, e dentes e garras terminam em pontas finas e escuras. A criatura golpeia meu peito repetidas vezes enquanto tento recuperar o fôlego; antes que eu consiga reagir, crava os dentes em meu braço esquerdo.
A dor é lancinante. Sinto a carne rasgar sob a mordida. Num ato desesperado, enterro o polegar direito no olho do svartálfr.
Um urro gutural ecoa pelas ruínas.
O elfo se contorce, e sua mordida afrouxa. Aproveito o instante para lançá-lo longe com um violento golpe das pernas e, sem perder tempo, percorro os escombros com os olhos.
Então a encontro. Entre as pedras, o brilho prateado da lâmina fura a escuridão. A runa de Algiz arde como uma centelha.
Ainda cambaleando, estendo o braço. Meus dedos alcançam o cabo, e mal volto a empunhar Skjöldr-Týr o svartálfr já investe outra vez. Giro o corpo quase por instinto. A lâmina descreve um arco prateado no ar, e o fio encontra seu pescoço.
O golpe não é perfeito.
Mas é suficiente.
A criatura despenca sobre as pedras e, ainda viva, tenta rastejar para longe. Levanto-me, dou um passo à frente e golpeio de novo. Desta vez, sem hesitação.
A cabeça do elfo rola entre os escombros. O sangue negro escorre pelo fio da espada, e o brilho vermelho de seus olhos se apaga. A runa de Algiz deixa de incandescer, ocultando-se outra vez no aço.
Respiro fundo.
O svartálfr está morto. Mas sua magia permanece viva.
Preciso encontrar seu coração.
Examino os escombros. Entre tábuas partidas e madeira apodrecida, distingo uma abertura estreita no solo: a entrada de uma passagem subterrânea. Apoio a espada contra uma pedra e começo a remover as tábuas que a encobrem. Cada movimento faz o ferimento latejar, e o sangue já encharca parte da manga, mas não posso parar. Depois de muito esforço, libero a passagem.
O buraco é pequeno, úmido e escuro. Recolho a espada e me arrasto para dentro.
O miasma pestilento fica ainda mais intenso. O ar é espesso, saturado de terra molhada, carne apodrecida e algo que não reconheço; a podridão parece aderir à minha garganta. Avanço curvado sob o teto baixo da galeria. As paredes estreitas comprimem meus ombros, e raízes pendem sobre minha cabeça como dedos retorcidos.
Pouco a pouco, o túnel se divide. Primeiro em duas passagens. Depois em três. Olho para trás: a luz da lua cheia ainda entra pela abertura, mas já não passa de uma faixa pálida e distante. Continuo avançando. Não há marcas nas paredes, nem pegadas no solo úmido, apenas corredores semelhantes, estreitos e sufocantes.
Então a última réstia de luar desaparece, e a escuridão me envolve por completo.
Paro.
Durante alguns instantes, escuto apenas minha respiração e o sangue pulsando no ferimento. Então percebo outra vibração. Mais profunda. Mais lenta.
O cristal.
Sua pulsação atravessa as paredes como as batidas de um coração enterrado. Permaneço imóvel, tentando distinguir de onde ela vem.
Uma batida. Depois outra.
Sigo o chamado pelas galerias; quanto mais avanço, mais forte ele fica. Por fim, uma fraca luz azul surge adiante.
Envolto em raízes, galhos secos e folhas apodrecidas, está o cristal negro. A luz pulsa em seu interior, expandindo-se e retraindo-se como se a pedra respirasse. Aproximo-me com cautela. Desta vez não há ilusão. Quando estendo a mão, o cristal estremece, e um frio diferente do da floresta percorre meus dedos e sobe pelo braço até os ossos.
Apanho a joia.
A luz azul ilumina a passagem e revela ossos de pequenos animais espalhados pelo chão e símbolos riscados nas paredes com sangue escurecido. Não permaneço ali por mais tempo. Seguro o cristal junto ao peito e refaço o caminho, reconhecendo as bifurcações à luz da pedra. Sua pulsação parece acompanhar a minha, como se a criatura aprisionada em seu interior soubesse o que pretendo fazer.
Encontro a saída e me arrasto para fora. O ar gelado da floresta atinge meu rosto.
Respiro com avidez. Nunca o frio me pareceu tão limpo.
Retorno ao altar no centro das ruínas e coloco o cristal sobre a mesa. A inscrição antiga ainda é visível sob a sujeira: “Aos seres da floresta, nossa reverência.” Por um instante, a luz azul percorre as gravuras e transforma as palavras em veios luminosos.
Empunho a espada com a mão direita. O braço esquerdo pende junto ao corpo, e o sangue escorre de meus dedos.
Ergo Skjöldr-Týr.
Golpeio.
O impacto ressoa pelas ruínas. A lâmina ricocheteia, mas o cristal permanece intacto.
Golpeio novamente.
Uma pequena rachadura surge na superfície negra, e dela escapa um fio de luz azul. O cristal começa a vibrar. Um som agudo rompe o silêncio: primeiro um sussurro metálico, depois um lamento estridente que atravessa meus ouvidos e comprime meu crânio.
Não recuo.
Golpeio novamente.
A rachadura se espalha. A luz pulsa com violência, e o altar inteiro estremece.
Então a floresta grita.
Não é o som de um único animal, mas de centenas deles despertando ao mesmo tempo. Aves levantam voo entre as copas, roedores correm sob as folhas, e o silêncio imposto pelo svartálfr se desfaz num coro selvagem. O grito do cristal torna-se insuportável. Sangue quente escorre de meus ouvidos.
Reúno o que resta de minhas forças, ergo Skjöldr-Týr e desço a lâmina.
O cristal se parte ao meio.
Uma onda de luz atravessa as ruínas e se espalha pela floresta, e o impacto me lança para trás. O som cessa. As duas metades da pedra escurecem sobre o altar. A névoa começa a se desfazer entre as árvores, as sombras recuam e, pela primeira vez naquela noite, consigo distinguir o céu entre as copas.
A maldição sobre a floresta enfim se rompeu.
Tento me levantar, mas minhas pernas já não obedecem. O ferimento arde como se os dentes do elfo ainda estivessem cravados em minha carne. Minha visão se estreita. Apoio uma das mãos no chão, mas as pernas cedem sob meu peso.
Desabo entre as pedras.
A escuridão me engole.
Desperto algum tempo depois, sem saber quanto permaneci desacordado. Já é dia, mas a luz mal atravessa as grossas nuvens cinzentas que encobrem Nidaros.
A dor no braço continua intensa. Com dificuldade, retiro da torba6 um pequeno maço de artemísia, mastigo as folhas, aplico a pasta sobre a mordida e rasgo parte das vestes para improvisar uma atadura. O tecido logo se tinge de vermelho, mas a compressão reduz o sangramento. Permaneço sentado por alguns minutos, até que minhas forças retornem aos poucos. As pernas ainda vacilam, mas sustentam meu peso.
Levanto-me.
Antes de partir, recolho a cabeça do svartálfr e a guardo dentro da torba. Será a prova de que cumpri minha missão.
Caminho, forçando cada passo, pelas ruas imundas de Nidaros. O odor pútrido é quase tão sufocante quanto o da floresta. Embora a peste já não esteja em seu auge, enfermos ainda vagam pelas ruas; alguns tossem sangue, outros apenas aguardam a morte encostados às paredes das casas. Os poucos que ainda têm forças para andar desviam de mim.
Ou me encaram.
Sempre com o mesmo olhar.
Desprezo.
Não respondo aos insultos. Já me acostumei a eles.
Sigo até a fortaleza onde fica a guarda real. Três soldados embriagados vigiam a entrada. Sem dizer uma palavra, retiro da torba a cabeça do svartálfr e a lanço diante deles. A criatura rola pela neve até parar aos pés de um dos guardas.
Os três se entreolham. Por um breve instante, o riso desaparece.
Então estendo a mão.
— Minha recompensa. Cinquenta pennings7.
Uma quantia alta, mas justa para um serviço que nenhum outro homem aceitou.
Um dos soldados cospe no chão. Outro observa meu braço ensanguentado e sorri. O terceiro recolhe um pequeno bornal e o lança contra meu peito.
Abro-o.
Vinte moedas. Apenas vinte.
Ergo os olhos.
— O combinado era cinquenta.
Os três começam a rir. O hálito azedo de cerveja se mistura ao frio da manhã. Balbuciam insultos desconexos, fazem piadas sobre minha aparência e voltam a beber como se eu não estivesse ali.
Permaneço imóvel.
— Quero o restante.
O sorriso desaparece do rosto do mais velho. Num único movimento, os três desembainham as espadas e apontam as lâminas para meu peito.
— Vá embora... enquanto ainda consegue andar.
Um deles me empurra. Depois outro. Acabo escoltado até os portões da cidade como se fosse um criminoso.
Não ofereço resistência. Meu corpo já travou batalhas demais naquela noite. Mas minha mente grava cada rosto, cada voz, cada gargalhada.
O ódio ferve em minhas veias. Se minhas forças estivessem restauradas, as cabeças daqueles três beberões estariam penduradas sobre os portões de Nidaros antes do cair da noite.
Deixo para trás a cidade e seus becos apodrecidos. Além das muralhas, os vales cobertos de neve parecem respirar em paz.
Ali me espera Grom, meu fiel corcel negro. Ao me ver, o animal relincha baixinho e aproxima a cabeça. Passo a mão sobre sua crina antes de montar.
Pela primeira vez desde a batalha, encontro algo que não me olha com desprezo.
Subo em seu dorso e, sem olhar para trás, aperto as rédeas. Grom põe-se em marcha. A silhueta de Nidaros se apaga aos poucos atrás da névoa.
Carrego vinte moedas onde deveria haver cinquenta.
Carrego um corpo moído onde deveria haver triunfo.
Carrego, sobretudo, a certeza de que a honra morreu muito antes do rei.
Amaldiçoados sejam todos.
Meu caminho será longo. E as trevas que me acompanham já não são minhas inimigas.
Tornaram-se minhas companheiras.
Notas
1 — Nidaros: atual Trondheim, na Noruega.
2 — Skjöldr-Týr: pronúncia aproximada “Xkiôld-Tir”. Skjöldr: “escudo”, em nórdico antigo; Týr: deus associado à guerra e à justiça na mitologia nórdica. As runas gravadas na lâmina, Algiz (proteção) e Tiwaz (a runa de Týr), pertencem ao Futhark Antigo, escrita já abandonada em 1387, o que atesta a antiguidade da espada.
3 — Fullt tungl: “lua cheia”, em nórdico.
4 — Landvættir: espíritos protetores da terra na tradição nórdica.
5 — Svartálfr: “elfo negro”, em nórdico antigo (plural: svartálfar), ser ligado ao mundo subterrâneo.
6 — Torba: termo de origem eslava e húngara para sacola de couro.
7 — Penning: moeda de prata local.
O Proscrito da Floresta Sagrada
Grom avança lentamente pela estrada enquanto Nidaros desaparece às minhas costas.Cumpri minha parte do acordo. Agora, Vlastibor cumprirá a dele. Eu finalmente terei minhas respostas.Ao menos é nisso que quero acreditar.Durante toda a viagem, uma pergunta me atormenta. Não é sobre o elfo. Tampouco sobre Vlastibor ou os homens de olhos negros.É sobre…

