
Drun
Um soldado que renunciou ao sangue para proteger aqueles que o império escolheu destruir.
by Chris Q
O machado de Drun já foi o orgulho do Império de Tapista, mas agora repousa sob o peso de uma culpa insuportável. Após testemunhar o massacre implacável de um vilarejo élfico, o veterano decide que não será mais o carrasco de tiranos. Ele abandona sua farda, seus títulos e sua antiga vida para se perder nas densas e perigosas florestas de Lamnor. Mas a redenção não é um caminho fácil. Caçado como traidor por seus antigos irmãos de armas, Drun se vê forçado a usar suas habilidades de combate para um novo propósito. Nas sombras da mata, ele se torna o guia invisível e o último escudo de refugiados que buscam a liberdade em um mundo que deseja vê-los acorrentados. Nesta jornada de sobrevivência e sacrifício, Drun descobrirá que o verdadeiro heroísmo não está na força de um golpe, mas na coragem de proteger os inocentes. Em Drun, Fabio Sasseron entrega uma fantasia sombria épica sobre as cicatrizes da guerra e a busca por um novo destino.
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A Geometria do Sangue
O cheiro da madeira verde queimando era sempre pior do que o da madeira seca. Tinha um peso úmido, uma fumaça gorda que se agarrava aos pelos do focinho e descia pela garganta como graxa quente. Sob o céu cinzento de Lamnor, o vilarejo dos elfos rebeldes não passava de uma geometria de brasas e cinzas, um traçado perfeito de linhas retas desenhado pela precisão militar da legião de Tapista. Os minotauros sabiam como limpar um terreno. Eles mediam a destruição com réguas e esquadros, como se a barbárie pudesse ser justificada por uma fração exata de engenharia militar.
Drun permanecia estático no centro do que fora uma praça. A armadura imperial pesava em seus ombros, o metal quente das placas peitorais ainda rangendo com o calor residual do incêndio. Em sua mão enorme, que já empunhara tantas armas com a destreza de um mestre, repousava uma pequena estatueta de madeira. O brinquedo estava manchado de um vermelho escuro e viscoso, o sangue de uma criança elfa que ele tentara, em vão, puxar de sob os escombros antes que os batedores terminassem o serviço. A Lei do Forte, a doutrina sagrada que os sacerdotes de Tauron martelavam em sua mente desde a infância, parecia agora uma piada de mau gosto, uma mentira desnecessária dita para que monstros pudessem dormir à noite.
— Drun! — A voz do oficial superior cortou o estalar das chamas, áspera e sem paciência. — Acabe com os que restaram atrás do celeiro. Limpe o terreno. Não queremos bocas inúteis consumindo ração ou espalhando boatos pela floresta.
O oficial apontou para um grupo de sobreviventes ajoelhados na lama, com os braços amarrados atrás das costas. Eram mulheres e velhos, os corpos trêmulos cobertos de fuligem. Drun olhou para eles, depois para a estatueta em sua mão, e por fim para o oficial. A Fúria, aquela velha conhecida que subia quente pelos seus chifres sempre que o sangue exigia ação, começou a despertar. Mas não era a fúria que o império queria. Era uma força fria, uma repulsa que vinha de um lugar muito mais profundo do que o treinamento militar.
Sem dizer uma única palavra, Drun ergueu o braço. O enorme machado de guerra, o símbolo de seu posto e de sua própria identidade como soldado de Tapista, escorregou de seus dedos calejados. O metal pesado bateu na lama cinzenta com um som surdo, definitivo. Foi um insulto silencioso, uma heresia que congelou o ar ao redor. Os soldados próximos pararam o que faziam, os olhos arregalados sob os elmos de bronze.
— O que pensa que está fazendo, soldado? — rugiu o oficial, a mão descendo para o cabo da própria espada. — Pegue essa arma. Isso é uma ordem!
Drun não respondeu. Ele simplesmente deu as costas ao oficial, ao exército e à carcaça fumegante do vilarejo. Cada passo que dava para longe daquela fogueira monumental parecia arrancar uma camada de sua própria pele, mas ele continuou caminhando. Os gritos de "traidor" e as promessas de uma execução lenta ecoaram atrás dele, mas a floresta de Lamnor logo começou a engolir os sons da legião com seu próprio silêncio hostil.
Ele adentrou a mata fechada, onde as árvores antigas pareciam guardar um ressentimento milenar contra qualquer um que vestisse o bronze de Tapista. O frio da noite começou a descer rapidamente, cobrando seu preço da carcaça cansada do desertor. Drun não tinha rumo, apenas a certeza de que a distância era sua única aliada. Ele caminhou por horas, sentindo o peso da culpa se misturar à exaustão física, até que um estalido sutil nas costas o fez parar.
Não era o som de um animal. Era o peso de um corpo leve, mas carregado de intenção. Antes que pudesse se virar totalmente, um vulto saltou das sombras das samambaias gigantes. Liriel, a sobrevivente elfa de cabelos prateados sujos de cinza, investiu contra ele. Seus olhos brilhavam com um ódio puro, quase insano, e ela segurava uma adaga rústica feita de osso lascado, apontada diretamente para a garganta do minotauro.
Drun não tentou sacar uma lâmina ou desferir um soco que poderia facilmente quebrar as costelas da elfa. Ele apenas moveu o ombro ligeiramente para o lado, permitindo que a lâmina de osso raspasse na lateral de sua armadura desgastada, arrancando uma lasca de metal e couro. O impacto a fez cambalear, mas ela se recuperou rapidamente, rosnando como uma criatura encurralada.
— Monstro! — ela cuspiu as palavras, a voz rouca de tanto gritar e chorar. — Vocês queimaram tudo! Vocês mataram todos eles! Me mata logo, seu covarde!
— Se eu quisesse você morta, não teria deixado o machado para trás — disse Drun, sua voz grave e lenta ecoando entre as árvores como o som de pedras se chocando na correnteza. — O luto é seu, elfa. A dor também. Se quiser tentar de novo, faça. Mas não vou lutar com você.
Liriel segurou a adaga com as duas mãos, os dedos tremendo de raiva e exaustão. Ela olhou para o minotauro, procurando a arrogância ou a crueldade típica dos conquistadores, mas encontrou apenas uma apatia melancólica, um vazio que parecia tão vasto quanto a própria floresta. Lentamente, percebendo que ele realmente não revidaria, ela abaixou a arma, embora seus olhos continuassem fixos nele com uma desconfiança mortal.
O silêncio voltou a reinar entre os dois, quebrado apenas pelo sussurro do vento frio nas copas das árvores. Foi nesse momento que Drun percebeu um detalhe sutil no chão úmido da floresta: marcas de botas que não eram dele e nem da elfa. Pegadas frescas, dispostas em um padrão de reconhecimento tático bem conhecido.
O Império não esperaria o amanhecer para caçá-lo. Os batedores já estavam na floresta, cercando a área antes mesmo que ele pudesse se afastar do vilarejo. Drun olhou para a escuridão que se estendia à sua frente, sabendo que a liberdade que buscava não era um prêmio, mas uma caçada implacável onde ele era a presa.
A Dieta dos Exilados
A lama de Lamnor tinha um gosto de ferro e folhas podres que não abandonava a boca, não importava quantas vezes Drun cuspisse no chão. O ar do Pântano dos Sussurros era tão espesso que parecia exigir um esforço físico para ser empurrado para dentro dos pulmões, uma umidade sufocante que cobria a pele sob os restos de sua armadura imperial como uma …
